A Magia Tukana
- Kurt Shaw
- 21 de jan.
- 4 min de leitura
A primeira vez que cheguei na terra indígena Balaio, estive doente. Nada ruim: o enjoo resultante de 8 horas de viagem numa das piores estradas do mundo, talvez com um pouco da fraqueza que ainda restou da minha luta contra leishmaniose. Em meio desse mal-estar, não podia acompanhar as mulheres à roupa de mandioca, nem os homens na pesca; me sentei embaixo de um pé de cupu e dediquei-me a passar a manhã observando a vida na aldeia.

Demorou pouco tempo para um ancião chegar a sentar ao meu lado no banco. As profundas rugas ao redor dos seus olhos e boca pareceram evidências de uma vida de muitos risos e muitas angustias — 105 anos de lutas, sua neta tinha explicado para mim o dia anterior, quando chegamos na comunidade. Era o Casimiro: fundador de Balaio, pajé, cumu, baiá. Depois, aprenderia que por quase um século, esse ancião tinha sido líder, inspiração, e referência não só no Rio Negro, mas em rodo o Brasil… mas nesse momento, só sabia seu nome e seu sorriso.
Desviei o olhar para observar algumas mulheres em caminho para a roça de mandioca. — Existem 19 qualidades de mandioca — Casimiro me disse. — A gente cultiva quase todas aqui. — E sem mais rodeios, ele começou a explicar para mim qual “qualidade” de raiz cresceu em qual terra e sol; qual qualidade era melhor para cada produto: para farinha, beijo, tapioca, caixiri, xibé, quinhampira….
Tem um tom, talvez um olhar, quando uma pessoa deseja comunicar algo importante ao outro. Senti esse peso da importância nessa minha primeira fala com Casimiro. Não era uma conversa séria. Muito ao contrário, era cheio de risos e gargalhadas, especialmente quando eu tentava repetir os vocábulos em tukano, Mas era uma conversa que o ancião que se viraria meu amigo queria marcar como significante. Mandioca importa. — Os antropólogos aparecem aqui para perguntar sobre nossa cosmovisão, nossos mitos e sistema de parentesco. Mas é de mandioca que vale falar. — Não lembro se ele falou esse frase, ou se é só a mensagem que interpretei, mas ficou comigo.
Quando Casimiro explicou a cura tukana para mim, a sua voz e seu olhar tinha o mesmo tom. Não de revelar o segredo, mas de dar algo importante, de peso. No livro Ominira, eu apresento essa cura um como magia, mas na realidade não é nada sobrenatural. A “magia” da medicina tukana se encontra na relação — seja entre duas pessoas ou entre os múltiplos seres que co-habitam dentro de uma pessoa.
A medicina, me ensinou Casimiro, é um tripé de remédio, narrativa, e benzimento. Para as pessoas habituadas com a biomedicina occidental, a fitoterapia faz mais sentido: ao final de contas, grande parte dos nossos remédios também tem origem nas plantas e seu impacto na biologia de células, viroses, e bactérias. A floresta amazônica tem uma riqueza inédita nessas plantas, e os tukanos as conhecem bem.
Mas quando Casimiro dedicou-se a curar uma pessoa, esse remédio era só uma parte do processo. Igualmente importante era encontrar uma história que ajuda a pessoa a entender a doença — embora talvez a palavra doença não é certa. É mais um desequilíbrio, um complexo de problemas que leva a sintomas de doença. Essa narrativa de cura pode ser um conto cultural, uma história que muitas vezes depreciamos como “mito” ou “lendas.” No Ominira, quando Fortunata queima Beatriz por acidente, o Casimiro fictício conta sobre a origem do fogo — história que o filho de Casimiro contou para um grupo de crianças, para elas criar a arte para um desenho animado. Mas também pode ser outro tipo de narrativa: uma década depois, quando cheguei no Balaio com a dor insuportável de ciática, a filha de Casimiro começou a cura com a minha própria história, me ajudando a dar sentido à lesão re-contando como eu tinha me machucado ajudando uma família ianomâmi, carregando 50 litros de gasolina para o barco deles.
O terceiro elemento da cura é o benzimento. Como no feitiço das bruxas ou magos europeus, o benzimento é uma longa série de sons e palavras em outros idiomas — em muitos casos, frases empresados ou roubados de comunidades ou idiomas distantes. Casimiro nunca vocalizou essas palavras: só movimentou os lábios sem ativar as cordas vocais. — A função do benzimento — Casimiro me explicaria em outra conversa — é fortalecer o corpo da pessoa, para melhor lutar contra a doença. É como uma vacina que ativa as células brancas. Como o veneno do sapo que os Matis usam para estimular o sistema imune. Entre nós, quando uma pessoa confia em mim, ele toma o benzimento que eu dou e os usa para se fortalecer. —
Para um estrangeiro que chega na comunidade tukana e observa o ato de cura, pode parecer magia, mas se for, também é magia o bom médico que sabe falar com uma pessoa. Também é o beijo da mãe quando sua filha se machuca.
Em outro momento, Casimiro insistiu que “nossa cultura é o carinho.” Uma das frases mais profundas que escutei na vida! Eu poderia dizer, ness forma, que a magia mais forte que tem no livro Ominira é, como a cultura tucana, o carinho.



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