O começo do livro; o começo da escritura
- Kurt Shaw
- 23 de mar.
- 2 min de leitura

Da sala, escuta-se o som inconfundível de magia na televisão. É a vigésima-sétima visualização de um filme de Harry Potter depois de que a pandemia começou? Vigésima-oitava? O pai já desistiu de contar.
— O pai! — grita a menina.
O pai sai da cozinha e pede que ela baixe o volume do filme. Ele olha para a televisão, onde pequenos bruxos e bruxas acima de vassouras mágicas passam pela tela em silêncio .
— O Brasil nunca é convidado para o mundial de quadribol! — a menina diz. Cada vez que o pai olha para ela, percebe como ela é mais pálida. Não só loira, mas branca mesmo por falta de sol.
— Parece injusto, né? — ele responde, tentando forçar-se a sorrir.
— É que aqui tem bruxa, sabe? Se convidasse, a gente ia ganhar fácil!
Assim que começa o livro Ominira, mas também foi assim que começou a criação do livro.
Como em tantos casos, um comentário infantil revela um mundo: Helena tinha 10 anos de idade. Adorava livros e filmes de magia e fantasia, mas também ama a diversidade do seu país. A nossa família sempre está viajando para fazer filmes com comunidades indígenas, rurais, afro-Brasileiras e ribeirinhas, assim que ela conhece bem a magia verdadeira que existe no Brasil. E nos livros que ela lia — e que eu lia para ela — essa magia foi ausente. Snape fazia poções no porão de Hogwarts. Gandalf e Dumbledore fizeram grandes feitiços para vencer o mal. Mas onde estava o trabalho da esquina, o poder do orixá, o benzimento da vó ou do pajé?
O filósofo francês Gilles Deleuze comenta em algum canto que “se você está preso no sonho do outro, você está fodido.” Eu acredito firmemente na imaginação como uma força de libertação: nossa criatividade, e especialmente a criatividade infantil, é um dos poucos caminhos que temos para criar as utopias que precisamos para resistir as injustiças do dia-a-dia. Por isso que fundamos uma ONG com o nome inusitado de Usina da Imaginação. Mas, ficar preso na imaginação do outro pode ser um presídio tão forte como Bangu ou Alcatraz.
É maravilhoso que crianças e adolescentes no mundo inteiro leem Harry Potter ou os livros de Tolkien. Para muitos — como para mim, na minha infância — essa fantasia é uma ferramenta para desafiar a ideia de que o mundo tem que ser como ele é. Porém, essa fantasia pode ser uma faca de dois gumes: sim, a criança começa a imaginar um mundo mais interessante, mais justo, ou simplesmente diferente. Mas esse mundo é… Escócia? País de Gales? França? Transilvânia? Como Helena notou no seu comentário sobre o mundial de quadribol, os países convidados eram todos europeus.
Nasci nos Estados Unidos, mas escolhei morar no Brasil. Foço esforço todos os dias para descolonizar as minha atitudes, crenças, e práticas. Mas esse simples comentário da minha filha revelou como uma coisa tão simples como ler para ela à noite me fez cúmplice, já uma vez mais, no colonialismo da imaginação.
Ominira é uma história de mandinga e benzimento, da luta do bem contra o mal. Mas também é a história de uma tentativa de descolonização da imaginação e da fantasia.



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