Como cheguei a escrever Ominira
- Kurt Shaw
- 21 de jan.
- 3 min de leitura
Se tem alguma coisa melhor que ler um bom livro, é ler um bom livro para uma criança que você ama. Quando minha filha era pequena, ler para ela na hora de dormir era um dos melhores momentos do dia: imaginamos juntos as cenas das histórias, imitamos as vozes das personagens, tentávamos prever como avançaria a trama e o drama, O Hobbit. A História Sem Fim. A Guia do Mochileiro para a Galáxia. Watership Down. E claro, todos os sets livros de Harry Potter.

O meu idioma nativo é inglês. Em grande parte, os livros que li para Helena eram os livros da minha infância — ou os que eu tinha lido, ou os que meus pais tinha lido para mim — e me ajudaram a fazer sentido do mundo onde vivia nos Estados Unidos. Mas Helena é uma menina Brasileira. Ela cresceu jogando capoeira, tocando pandeiro, remando canoas com os amigos indígenas no alto Rio Negro onde a mãe dela e eu trabalhamos. Por tanto que adoro ler sobre Gandalf ou Dumbledore, eles e a magia que praticam não são do mundo dela.
Ao mesmo tempo, Brasil é um mundo cheio de magias. Quando Rita, Helena, e eu fomos caminhar a beira de um riacho nas montanhas, as vezes achamos uma melancia, cachaça, e velas numa oferenda para Oxum. Os benzimentos dos pajés indígenas e benzedeiras tradicionais têm uma força que ninguém pode negar. Cartazes improvisados prometem amarração no amor e búzios para previsão do futuro. E quando descrevo aos amigos estrangeiros os tambores que inspiram um orixá a baixar no terreiro, só posso usar palavras como magia.
Durante a pandemia, Rita e eu trabalhamos online com um grupo de crianças bem diversas e de todas as partes do país: as crianças inventaram um roteiro, assumiram os papeis que criaram, e se filmaram em casa para criar um filme coletivo. Depois da quarentena, entrevistamos várias crianças sobre a experiência, e lembro claramente de uma menina de 8 anos que defendeu o uso da magia na história.
— O mundo é feito de magia — Valentina disse. — O simples fato que os átomos se juntam em células é magia. Que as células formam plantas e animais. E quem acredita nessa magia tem esperança. E luta para defender essa magia, para o mundo ficar melhor.
Entre as piores heranças do colonialismo é a sensação persistente de que — para citar Milan Kundera — “A Vida Está em Outro Lugar”. E o fundamento dessa sensação é o colonização dos sonhos: que as fantasias e epopeias “certas” só podem acontecer no Europa ou os Estados Unidos de (Norte)américa.
Não cresci em terreiro nem em comunidade indígena. Mas a perspectiva que eu posso trazer a esse livros é a de migrante: de quem escolheu viver no Brasil e sabe a força de imaginação que surge da diversidade desse pais. Quero reivindicar a magia e esperança brasileiras, insistir que não só têm lugar nas montanhas de Escócia e as colinas de País de Gales, mas ainda mais nos quilombos, favelas, e aldeias do Brasil profundo.
Uma das minha autoras preferidas uma vez escreveu no prefácio do seu livro que ela passou anos procurando um livro de tal e tal tipo; quando ao final ela cansou de procurar, ela resolveu escrever o livro que ela buscou. De algum jeito, posso contar a mesma história sobre Ominira. Queria ler para minha filha uma fantasia brasileira onde Hogwarts fica num quilombo e Harry e Hermione aprendem a mandinga africana e as curas indígenas.



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