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O Mundo onde começa Ominira

Quando cheguei a Santa Catarina, me apaixonei pelo seu paisagem: as rochas imensas perdidas na mata profunda, cobertas de bromélias e dama-do-abismo; as montanhas de surgem direto do mar e os penhascos imponentes da Serra Geral; o labirinto de árvores, cipos, e orquídeas que se esconde a poucos metros de distância de uma estrada.



Eu sempre adorei a natureza exuberante da Mata Atlântica e caminhei as trilhas conhecidas da Ilha de Santa Catarina e a região próxima. Era com o desespero da pandemia — a necessidade psicológica e quase fisiológica se sair de casa, de encontrar horizontes diferentes — que comecei a pesquisar e aventurar. Encontrei velhas mapas com trilhas escondidas. Procurei nos apps de exercício na natureza, como Strava e Wikiloc, para ver onde outras pessoas estavam caminhando e correndo.


A história de Florianópolis inscreve-se (e, aliás, perde-se) nas suas trilhas. Um dia, Rita e eu estivemos caminhando acima da Lagoa da Conceição quando encontramos um jovem num mirante. Ele estava fazendo seu mestrado sobre a história das trilhas da região, e explicou que aquele sendeiro que tínhamos caminhado foi construído ou reformado para o carregar o palanquim do emperador durante sua visita à Ilha — seria um caminho especial da Vila da Lagoa até Santo Antônio de Lisboa.


A trilha onde acontece a primeira cena do livro também é verdadeiro: a mesma picada que leva aventureiros da Armação até a cachoeira da Gurita — e depois até o Sertão do Ribeirão — foi construída por africanos cativas e escravizadas para carregar óleo de Baleia até o porto do Ribeirão, um ponto de acesso mais fácil para navios grandes. Bem no final da trilha, o caminhante achará muitas ruínas, evidências de casas, armações, até um engenho de farinha que aproveita da energia das quedas d’água. O livro começa exatamente lá, num lugar agora quase perdido, visitado de um em mil turistas que visitam a “Ilha de Magia”, mas que há muitos anos foi um dos lugares mais prósperos da região.


Nas outras trilhas ao redor da Lagoa de Peri, o caminhante que presta atenção na mata vai ver outros escombros desse passado perdido. O que agora parece uma mata intacta é, na realidade, uma mata recuperada. Na época de Ominira, toda essa região era de casas e engenhos — e sim, senzalas.


Uma frase sempre volta a minha mente de um dos meus poemas preferidos, o Wasteland de TS Eliot: “These fragments I have shored against my ruins.” (São esses escombros que fortificam minhas ruínas.) Eliot era um pessimista ferrenho (entre outros dos seus “istas” que descorda firmemente!), e o que ele queria dizer com essa frase não é o que eu sinto… mas as palavras ainda ecoam. De algum jeito, Ominira é uma fortificação das ruínas da minha imaginação, uma tentativa de imaginar um desvio na história de Santa Catarina.


Se a magia fosse verdadeira… se tivesse a força para derrubar a escravidão e a brutalidade do colonialismo… o que seria o mundo nosso? Como seria mais justo, mais interessante.

 
 
 

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